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O surpreendente lado ruim de ser bonito

É praticamente impossĂ­vel para a maioria de nĂłs imaginar que ser bonito demais pode ser algo negativo, a ponto de prejudicar vĂĄrios aspectos da vida de alguĂ©m.

Mas para uma dupla de psicĂłlogas da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos Estados Unidos, que analisaram centenas de estudos sobre o assunto realizados nas Ășltimas dĂ©cadas, a beleza traz suas maldiçÔes.

Diante das evidĂȘncias coletadas, Lisa Slattery Walker e Tonya Frevert perceberam que, de maneira superficial, a beleza Ă© algo que carrega uma espĂ©cie de aura. “Quando vemos alguĂ©m com um atributo positivo, nosso subconsciente, por associação, acredita que aquela pessoa tambĂ©m tem outras qualidades”, explica Walker. “Isso Ă© uma caracterĂ­stica que identificamos nas primeiras interaçÔes de um bebĂȘ com o mundo”.

Para a Psicologia, essa associação intuitiva explicaria o fenĂŽmeno coletivo da premissa de que “tudo o que Ă© bonito Ă© bom”. Walker e Frevert descobriram uma grande quantidade de estudos que mostraram que alunos mais bonitos em escolas e universidades tendem a ser julgados por professores como os mais competentes e inteligentes – e isso se reflete em suas notas.

AlĂ©m disso, a influĂȘncia dessa premissa tende a aumentar com o passar dos anos. “Ocorre um efeito cumulativo: ao ser bem tratado, vocĂȘ se torna mais autoconfiante e tem pensamentos mais positivos e mais oportunidades para demonstrar sua competĂȘncia”, afirma Frevert.

No ambiente de trabalho, seu rosto pode realmente selar o seu destino. Considerando-se todas as variĂĄveis, foi descoberto que as pessoas mais atraentes tendem a ganhar melhor e a subir mais rĂĄpido na carreira do que aqueles considerados fisicamente pouco interessantes.

Um estudo feito com alunos de um curso de MBA dos Estados Unidos mostrou que a diferença entre os salĂĄrios dos mais bonitos e dos menos atraentes do grupo variava de 10% a 15% – o que significa um acĂșmulo (ou perda) de atĂ© US$ 230 mil ao longo da vida laboral. “As vantagens de uma pessoa bonita começam na escola e a acompanham durante toda a carreira”, conclui Walker.

AtĂ© nos tribunais, a beleza parece exercer seu fascĂ­nio. RĂ©us mais bonitos tĂȘm mais chances de obter penas mais leves ou atĂ© serem absolvidos.

Da mesma forma, se aquele indivĂ­duo que entrou com o processo for mais atraente, Ă© para ele que a balança da Justiça tende a pender, fazendo com que ganhe seu caso e consiga indenizaçÔes maiores. “É um efeito penetrante”, define Walker.

Apesar de a beleza ser algo favorĂĄvel na maioria das circunstĂąncias, hĂĄ situaçÔes em que ela ainda atrapalha. Enquanto homens bonitos podem ser considerados bons lĂ­deres, certos preconceitos de gĂȘnero costumam atrapalhar as mulheres atraentes, diminuindo suas chances de serem contratadas para cargos mais elevados, que requerem autoridade.

E, como Ă© de se esperar, os bonitĂ”es tambĂ©m sĂŁo vĂ­timas de inveja. Um estudo revelou que se vocĂȘ Ă© entrevistado para um emprego por alguĂ©m do mesmo sexo, corre mais risco de nĂŁo ser considerado para a vaga se o recrutador achar que vocĂȘ Ă© mais bonito do que ele.

Mais preocupante ainda Ă© o fato de a beleza poder prejudicar a saĂșde: as doenças sĂŁo encaradas com menos seriedade quando afetam os bonitĂ”es. Ao tratarem de pacientes com dores, por exemplo, os mĂ©dicos tendem a descuidar das pessoas mais bonitas.

A “bolha” criada em volta da beleza tambĂ©m pode criar um certo isolamento. Uma pesquisa americana mostrou que as pessoas tendem a se afastar quando cruzam com uma mulher bonita na rua – talvez em um gesto de respeito, mas tornando a interação mais distante.

“O fato de uma pessoa ser atraente pode transmitir uma noção de que ela tem mais poder sobre o espaço Ă  sua volta, mas isso pode fazer com que os outros sintam que nĂŁo podem se aproximar dela”, afirma Frevert.

Um exemplo interessante disso foi a recente informação, divulgada pelo site de encontros britùnico OKCupid, de que pessoas que aparecem lindas em seus perfis conseguem menos pretendentes do que aquelas cujas fotos apresentam algumas imperfeiçÔes, e, portanto, são menos intimidadoras.

Atalho ‘pouco confiĂĄvel’

Por isso, como vocĂȘ pode imaginar, ser bonito ajuda, mas nĂŁo Ă© um passaporte carimbado para a felicidade.

Frevert e Walker, no entanto, enfatizam que as influĂȘncias da beleza sĂŁo superficiais e nĂŁo estĂŁo arraigadas em nossa biologia, como alguns cientistas jĂĄ sugeriram.

“Temos um conjunto completo de padrĂ”es culturais sobre a beleza que nos permite dizer se alguĂ©m Ă© ou nĂŁo atraente – e atravĂ©s dos mesmo padrĂ”es, começamos a associĂĄ-la com competĂȘncia”, diz Walker.

De certo modo, trata-se de um atalho cognitivo para uma råpida avaliação.

“Assim como muitos dos outros atalhos que usamos, esse tambĂ©m nĂŁo Ă© muito confiĂĄvel”, rebate Frevert.

E Ă© relativamente fĂĄcil diminuir o impacto da beleza – por exemplo, se um departamento de recursos humanos recolher mais detalhes sobre a experiĂȘncia do candidato antes de fazer uma entrevista, sem se deixar influenciar tanto por sua aparĂȘncia.

Infelizmente, Frevert ressalta que concentrar-se demais na aparĂȘncia tambĂ©m pode ser prejudicial se isso criar estresse e ansiedade – mesmo entre aqueles que jĂĄ sĂŁo abençoados com esse atributo. “Se vocĂȘ ficar obcecado com a beleza, isso pode alterar suas experiĂȘncias e relaçÔes”, afirma ela.

2 thoughts on “O surpreendente lado ruim de ser bonito

  1. Avatar Helen Machado says:

    Perfeito o resultado da pesquisa. Jå havia percebido e constatado todo esse cenårio em torno de pessoas com este atributo da beleza, além de outras implicaçÔes que afetam suas vidas no aspecto afetivo e social, acarretando até mesmo culpa e medo da discriminação
    de uma sociedade limitada a conceitos engessados.
    Agradeço a publicação.

    smo
    uma certa culpa por ser

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