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TROCANDO EM MIÚDOS

Quero saber amar quando for necessário e aceitar as despedidas quando elas forem inevitáveis. Viver sem arrependimento para evitar a chegada das culpas. Além da casa cheia de gente, quero ter um coração ocupado de sentimentos.

Não quero mais acumular arrependimentos do que não fiz. Procurarei entender que se não fiz, é porque uma força maior impediu. Não darei atenção aos rumores dos meus pensamentos que colocam dúvidas e abafam meus questionamentos.

Não vou insistir em entender aquilo que não faz muito sentido. Vou sim, sentir o afeto inevitável, conferindo para quem devo oferecer meus sentimentos.

Quanto aos ganhos, eu sei que são resultados de lutas e eu espero que não sejam árduas demais, mas toleráveis para que eu possa suportar e não precise derramar tanto suor e principalmente nenhuma lágrima. Sobre as perdas, que não me cause tanto medo, não me prive a liberdade e não me ampute os sonhos. Quero mesmo é perder com dignidade e ganhar com sabedoria.

Que eu ande também preparada para caminhar nos nevoeiros. Permita-me experimentar o novo, insistir nas experiências, tentar e tentar, sem hesitação.

Quero olhar além do horizonte, para os lados e para trás, assim terei a certeza de que vou enxergar as arestas, as curvas, as zonas periféricas. Quero ter a absoluta certeza de que fui capaz de perceber todas as pessoas que se estavam nestes lugares.

Não quero me privar do amanhã. A oportunidade e a possibilidade podem estar exatamente no dia seguinte.

Não adotarei nenhum lema que me engesse a identidade de ser e fazer de um jeito melhor. Nem quero passar impunemente pela vida. Necessito viver tudo aquilo que tenho direito e se for para ralar o joelho, que eu tenha na sacola o remédio para curar os tropeções e raladuras.

Que a vida não me pegue desprevenida. Que nenhuma lição seja repetida por falta de aprendizagem. Sentir-me-ei confortável se souber que fui boa aluna.

Quero capturar a euforia, o entusiasmo pelo novo. Fazer todas as tentativas. Completar o trajeto, fazendo a minha parte e dando o meu melhor.

Quero me importar comigo, com os outros e entender que fascinante é a caminhada. Trocando em miúdos e traduzindo minhas vontades, se eu morrer agora, que seja por ter vivido em demasia. E por falar em querer, eu quero mais é quebrar tabus, arregaçar as mangas, abrir as portas e soltar todos os meus vocábulos junto com o meu coração. Quero é dizer do que gosto, de quem gosto. Repetir a dose, exagerar no gole, não fazer corpo mole e assumir meus sentimentos. Quero que se dane a formalidade que me exige andar de salto alto, corpo ereto, copos, talheres e pratos no mesmo alinhamento. Quero mesmo é dar adeus a frescura que me deixa entalada na roupa de festa e me faz beber vinho em pequenos goles, para não entornar. Que me exige dar risadinhas no canto da boca e fazer poses para ficar bem na foto.

Quero sai por ai. Andar descalça. Cumprimentar os passarinhos. Sorri para as flores e gargalhar com as crianças. Quero falar de amor para que todos possam ouvir. Ter liberdade de ficar em silêncio. Aconselhar meu coração. Sonhar com dias melhores. Cantar sem rima. Escrever sem motivos. Chorar sem razão. Amar sem restrição.

Romper o óbvio. Sair do prumo. Soltar os remos e navegar. Colher flores para dar de presentes. Tricotar verdades. Descartar as mentiras. Dizer bye bye para a tristeza. Não ser levada a sério. Não servir de exemplo. Não dar conselhos. Quero acordar na lua. Tocar o céu. Passear pelas nuvens, pelo menos nos sonhos.

Quero um dia maior para viver com vontade. Um coração mais largo para caber tanto amor. Por favor, não me fale de regras, técnicas, normas. Perdi essa aula por pura teimosia.

Quero viver, aventurando-me na ousadia de fazer um belíssimo espetáculo, sem nenhum script. Sem nenhum diretor que me exija tanta disciplina. Quero é suportar minhas loucuras e me completar com o resto de alegria possível.

 Autor: Ita Portugal

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9 thoughts on “TROCANDO EM MIÚDOS

  1. Cássia Silva says:

    Para tudo isso acontecer primeiro tenho que lutar contras as minha tendências que ainda me cobram,
    perdoar meu EU tão cheio de NÃOS e tão somente ter aceitação do que Sou, e do que são.

  2. angela de oliveira says:

    Texto magnífico!!!

    Pode parecer amargura, mas…Pena, que na prática não funciona. Não somos tão certos e perfeitos.
    Parabéns, pra quem esta nesse nível de evolução. Um dia chegarei nesse estado. “Certo”! Talves!!!
    O amor é belo enquanto é alimentado. Onde o belo do texto, acaba sendo palavras que transcorrem, por seu próprio efeito de querer que essa verdade seja “Verdades”!!!

  3. Boris Lessa says:

    A disciplina é fundamental para uma vida harmoniosa e tem o seu tempo e lugar, mas, sempre que possível, a descontração e a espontaneidade devem ser buscadas para alívio das tensões.

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