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Ensina-me a morrer

Autor de Quando Nietzsche Chorou, Irvin D. Yalom reflete sobre a vida enquanto escreve novo livro sobre o medo da morte

A voz de Irvin D. Yalom diz tudo. Aos 75 anos, mantém-se encorajadora como a de um psiquiatra, segura como a de um professor e despachada como a de um best seller que não tem tempo a perder – ele marcou a conversa com a SUPER para uma manhã de sábado, por telefone, de seu escritório na região norte da Califórnia, nos EUA. “Alô, Yalom falando”, atendeu sem cerimônia. Professor emérito de psquiatria na Escola de Medicina da Universidade Stanford, ele se divide entre sua casa em Palo Alto e o consultório em São Francisco – são quase 50 anos de prática clínica. A maior parte do tempo, porém, é dedicada à escrita. “Quero passar adiante tudo o que aprendi ao longo da vida.”

É uma missão que ele vem cumprindo. Seus 3 romances de ensino, como prefere chamá-los, Quando Nietzsche Chorou, A Cura de Schopenhauer e Mentiras no Divã, foram publicados em 20 países. No Brasil, freqüentam a lista dos mais vendidos até hoje, com exceção de Schopenhauer – talvez por sua melancolia. E, em janeiro, chegou às livrarias brasileiras um Yalom diferente, não ficcional, em Os Desafios da Terapia, publicado nos EUA em 2002.

Agora o autor se prepara para enfrentar o fim da vida. No ano que vem ele lança Fear Not (“Não Tema”), título provisório do seu próximo livro, que vai discutir como enfrentar o medo da morte. O escritor diz que vai debater como o tema foi pensado ao longo dos tempos e dar sugestões para as pessoas tirarem proveito desse temor em busca de uma vida melhor.

Em seu último livro publicado no Brasil você insiste na necessidade de uma profunda relação entre terapeuta e paciente. Por que isso é tão relevante?

Para mim, a cura se dá através da relação paciente-terapeuta. Se o terapeuta não buscar se relacionar com o paciente e o paciente se recusar a vivenciar esse relacionamento, o tratamento pode simplesmente não chegar a lugar nenhum. Eu gosto de estar focado na natureza dessa relação. É o que chamamos de processo aqui-e-agora, que se ampara na importância da relação interpessoal e na idéia da terapia como um microcosmos social. Em outras palavras, se o paciente é arrogante ou tem muita raiva, esses traços tendem a se expressar no relacionamento com o psiquiatra de forma até mais forte do que com outras pessoas. Por isso, penso que a terapia não deve ser guiada pela teoria, mas pelo relacionamento.

O público brasileiro o conhece pelos seus romances. Mas Os Desafios da Terapia é uma não-ficção focada na psicoterapia. O que ele tem de diferente?

Todos os meus livros são de ensino, mesmo os romances. Não escrevo exclusivamente para terapeutas e interessados nesse assunto, mas também para o grande público. Em todos meus textos a terapia desempenha um papel muito importante. Nesse livro específico, dou dicas sobre como acredito que a terapia deve ser. Falo da importância do relacionamento paciente-terapeuta, sugiro formas de exploração de preocupações como a morte e o significado da vida, comento a utilidade dos sonhos.

Você tem dito que a psiquiatria está cada vez mais condicionada à lógica do capital. O que isso quer dizer?

Nos últimos anos, as forças econômicas, por meio do sistema de assistência médica, fizeram com que o tratamento psicológico se tornasse cada vez mais ágil, com terapias extremamente breves e superficiais, orientadas pelo diagnóstico de sintomas sem observar a verdadeira natureza do problema. Acho que esse enfoque não é o correto – penso que a ênfase deveria ser dada ao tratamento individualizado. Espero que os novos terapeutas, apesar dessa pressão, encontrem pacientes dispostos a assumir um compromisso com a terapia. Os Desafios da Terapia é dirigido para terapeutas e pacientes que tenham esse interesse.

Como será seu novo livro sobre o medo da morte?

Será diferente de Os Desafios da Terapia, que é estruturado em pequenas cartas e dicas para terapeutas. O novo livro é uma não-ficção sobre como superar o medo da morte e a ansiedade provocada por ele. Hoje, todos parecem ter medo da morte o tempo inteiro. Escrevo sobre o quanto a ansiedade freqüentemente assola as pessoas, sobre o papel que elas permitem que o medo desempenhe em sua vida. Apresento uma visão histórica de como o tema já foi trabalhado e como podemos tirar proveito disso, além de dar sugestões aos terapeutas sobre como eles podem ajudar os pacientes. Confrontar a morte é uma chave para viver uma vida feliz e completa. É preciso entender que, embora a morte nos destrua fisicamente, sua idéia pode nos salvar. Epicuro, por exemplo, deverá ser um pensador importante neste novo livro [para o filósofo grego, “a morte não é nada para nós, porque, enquanto nós existimos, a morte não existe e quando a morte está presente nós estamos ausentes”].

Enquanto o público espera pelo novo livro, vamos falar de Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer. Por que escolheu esses dois filósofos?

Ambos têm muito a ensinar sobre a vida nos seus mais diferentes e profundos níveis. Deixaram grandes pensamentos sobre como ela pode e deve ser vivida. Além disso, eram muito bons escritores. Nietzsche, por exemplo, tinha uma imaginação poética. Em Quando Nietz­sche Chorou eu quis mostrar, no relacionamento profundo entre dois homens [o filósofo alemão e o médico austríaco Josef Breuer], que Nietzsche poderia ter criado a psicanálise e até mesmo ter se curado de seu desespero por meio dela. A Cura de Schopenhauer é um tipo diferente de romance. Eu queria originalmente escrever a psicobiografia de um filósofo, que foi Schopenhauer. Então, depois de uma longa e muito cuidadosa pesquisa sobre sua vida, o observei através dos olhos do terapeuta e inventei um personagem igual a ele. Outro objetivo nesse romance foi apresentar precisamente o que é a psicoterapia de grupo ao público em geral, que acaba ficando com uma noção errada e estúpida desse processo. Isso acontece porque a mídia passa uma idéia muito estereotipada. Também posso dizer que foi ali que se deu a influência inicial para o meu novo livro sobre a superação do medo da morte [na obra, o personagem do terapeuta Julius Hertzfeld sofre de um câncer incurável].

Seus livros deram acesso ao grande público a reflexões de pensadores universais. O que você acha dessa filosofia para todos?

Eu realmente espero que meus livros tenham feito isso. Fico encantado em trazer essas pessoas de volta à vida! Isso me dá uma enorme satisfação. Os filósofos têm muito a nos ensinar, nos oferecem sabedoria sobre como podemos e devemos viver. Seus pensamentos vão aos níveis mais profundos da condição humana, como o significado da vida, a morte, a liberdade, o isolamento. São muito úteis para a terapia. O que fiz foi tentar tornar esses conhecimentos mais acessíveis.

Alguns críticos dizem que suas obras não passam de auto-ajuda disfarçada.

Acho que os livros de auto-ajuda são um tanto superficiais, trazendo, por exemplo, listas de 10 coisas que você tem de fazer para isso ou aquilo. Eu espero que meus livros permitam às pessoas se encontrar, que sejam úteis à sua vida. Mas tento fazer isso de um modo mais sofisticado e elegante.

Como você divide seu tempo entre a literatura e o consultório? Sua relação com os pacientes mudou depois de você se tornar um best seller?

Passo a maior parte do meu tempo escrevendo. Em primeiro lugar, sou um escritor. Tenho uma necessidade muito grande de passar adiante tudo o que aprendi ao longo da minha vida e venho fazendo isso através da literatura. Agora, eu não diria que isso tenha mudado minha relação com os pacientes. A maioria deles já leu algo que eu escrevi e acho que isso facilita as coisas. Faz com que entrem no clima do tratamento um pouco mais rápido, eles já vêm com uma boa idéia sobre o jeito como eu trabalho. Outros chegam com uma imagem idealizada de mim e, por isso, podem se sentir intimidados, mas essa é uma questão que trabalho bem no começo, sou muito cuidadoso em trazê-la à tona e observar.

Você trata a literatura como a uma grande fonte de informação sobre a condição humana. Já leu algum autor brasileiro ou latino?

Conheço a obra de Jorge Amado. Faz uns 10 ou 15 anos que li seus livros, mas me recordo de ter gostado muitíssimo de Gabriela, Cravo e Canela; Dona Flor e Seus Dois Maridos; e Capitães de Areia [apelando à ajuda da repórter para completar o nome dos títulos com aquela pronúncia típica do americano que puxa o erre]. Gosto também de José Saramago e dos sul-americanos Jorge Luis Borges e García Márquez. Além de Cervantes. São escritores que refletiram bastante sobre como e por que devemos viver.

Você diz ter desenvolvido cedo na vida a noção de que escrever um romance é a melhor coisa que uma pessoa pode fazer. Estudou medicina já decidido a seguir psiquiatria. Tornou-se um profissional de renome e um best seller. Acredita que o homem é capaz de programar a própria vida?

[Suspiro] Acredito que o ser humano pode tentar criar sua vida de uma maneira que consiga se sentir realizado e completo. Eu quis estudar psiquiatria, então fui lá e aprendi do que se tratava. É uma área da medicina que lida com o processo humano e entendo que uma boa forma de escrever sobre – e de ensinar – esse processo humano aos demais seja através da grande literatura. As obras de escritores psicológicos, como Tolstoi e Dostoiévski, me interessaram desde cedo. Entendo que a melhor forma de transmitir conhecimento seja dessa maneira, mais do que a científica. E sempre quis ser capaz de escrever um bom romance que pudesse ser útil à vida das pessoas.

Fonte: Revista Super interessante, abril de 2007

Autor: Denize Guedes

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