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Desmascarar-te

Querida, venho por meio desta, desmascarar-te um pouquinho desta tua pose de boa moça. Permita-me analisar tua poesia como o teu oculto desespero, diagnóstico que farejo entre as muito bem construídas frases que versam pretensa liberdade que prescreves aos outros.

Ambos sabemos que do outro lado das palavras de coragem és guria assustada, e sabes tanto quanto eu que felicidade não entra em gaiolas, mas tu passaste a caber muito bem nelas. Ganhaste asas nas letras, mas na vida desaprendeste a voar.

Mergulhas nas imensidões da literatura mas és escrava dos medos ao voltar para casa. Conquistaste as palavras e os outros com teu charme, mas não a ti mesma. Enquanto falas, sem perceber confessas o que não tens como se tivesses, e o que não és como se fosses.

Por isto, este recado é para ti, moça prendada nas receitas para qualquer dos males da tristeza, mas que ainda não tomaste qualquer remédio; que apenas multiplicas enganos com outros muito bem arrumadinhos.

Tu ensinas sem nunca ter usado a lição. Tu que não escolhes o inteiro por medo de seres inteira e enfrentar os amanhãs. Tu que moras confortavelmente com tuas angústias mas não queres o incômodo de desalojar ninguém da vida, e nem do peito.

Tu que vendes certezas e compras mais dúvidas do que suportas. Tu que carregas nome tão bonito mas atendes pelo sobrenome da fraqueza. Tu que esperas da sorte, do acaso, do outro e até das conjunções planetárias alguma facilidade para ganhar vida nova, fingindo não saber que não se ganha uma, mas se conquista. Pois é, eu vejo muito bem você.

Permita-me querida, desmascarar-te ao tempo em que me desmascaro também.

(Guilherme Antunes)

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3 thoughts on “Desmascarar-te

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