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“A infância é um mistério tão grande que qualquer romancista terá interesse em o explorar”

A obra de Ian McEwan – o autor de A Criança no Tempo, O Jardim de Cimento, Expiação – é um testemunho brilhante da nossa vida privada e da nossa experiência colectiva. Veja-se o novo romance, A Balada de Adam Henry.

Desde que iniciou uma fulgurante carreira literária, nos anos 70, a sua escrita tem funcionado como uma consciência incómoda, brutal, irónica e lúcida.

Nos seus romances – e nas suas peças jornalísticas – aborda temas e acontecimentos históricos que têm condicionado e moldado tanto a nossa vida privada como a experiência colectiva. Da ameaça nuclear à eutanásia, das mudanças climatéricas à guerra do Iraque, das descobertas científicas à perspectiva do passado, dos devastadores sofrimentos amorosos aos dilemas morais, dos nefastos efeitos do fundamentalismo religioso ao seu contraponto, a luz da Razão, tudo cabe numa obra que é também testemunho brilhante e uma reflexão filosófica de um autor que, simultaneamente, traça uma bem arquitectada teoria literária dedicada aos fundamentos e desenvolvimentos do romance.

A Balada de Adam Henry (The Children Act) é uma ponderação sobre a justeza das Leis e sobre a Ética pessoal de quem as aplica. O confronto entre uma Juíza do Supremo Tribunal e um jovem que recusa, por uma questão religiosa, uma transfusão de sangue que pode salvar-lhe a vida, é a trama ideal para abordar questões universais com personagens e situações credíveis, complexas e esplendorosas, nas suas posturas e reivindicações.

Na sua obra, desde a publicação dos primeiros contos, em 1975, crianças e adolescentes, de ambos os sexos, têm ocupado um espaço importante. Neste livro, Adam Henry é um jovem que protagoniza um caso judicial com implicações de ordem moral que transcendem a própria Lei.
Sim. O problema reside no facto de Adam estar a três meses de completar 18 anos. Tecnicamente, aos olhos da Lei, é ainda uma criança mas, na realidade, é já um rapaz com uma certa maturidade, um poeta e um músico, com uma brilhante imaginação e um raciocínio claro e lúcido. Não é fácil tomar uma decisão, entre os pais extremosos que adoram o seu filho mas se guiam por preceitos religiosos rígidos, e uma sociedade que, de acordo com a lei, tem de proteger as “crianças”, a todo o custo.
Os conflitos familiares são a matéria-prima do romance, já dizia Freud. Os casos do tribunal de família que pesquisou deram-lhe essa sensação, a de mergulhar num manancial de temas novelísticos?
Aqui, em Inglaterra, a Lei da Família contempla o facto de, a partir dos 16 anos, se um paciente quiser tomar decisões – tal como recusar um tratamento – poderá fazê-lo; no entanto, os ditames do referido Children Act podem interferir. No caso de Adam, a Lei pode invocar o facto de se correr o risco de ele estar a atentar contra a sua vida por uma questão religiosa. De um lado estão os pais – Testemunhas de Jeová – e, do outro, a advogada, cada um a defender o seu ponto de vista. Não é uma tarefa fácil. Esta tensão é, realmente, matéria própria do romance, da ficção. Embora eu me tenha baseado num caso real.

Na sua obra, crianças e adolescentes estão no centro de situações dramáticas. Em Expiação, o olhar inocente de Briony causa danos irreparáveis, o que também acontece com os inexperientes irmãos em O Jardim de Cimento. Em A Criança no Tempo, o rapto da filha de um autor de livros infantis é devastador e, aqui, Adam quer morrer sem ter muita consciência do que representa tal decisão. Existe sempre uma atmosfera ameaçadora como a que é usada por Henry James, em A Volta do Parafuso? É importante, para si, criar esse tipo de ambiente?
Sim, mas o que pretendo é representar situações mais reais, nas quais se revelam claramente os problemas da ambiguidade moral. É verdade que James é uma influência mas diria que me agrada mais What Maisie Knew, onde existe uma profunda consciência infantil, servida, evidentemente, por um vocabulário absolutamente brilhante e precioso.
O romance de Henry James que refere é, também, sobre a dificuldade de uma criança em compreender e conviver com circunstâncias difíceis.

Uma das razões que me faz olhar para os adolescentes (e crianças) com tanto interesse é o facto de eles e elas se situarem desconfortavelmente nessa espécie de zona de sombra, entre a infância e o estado adulto. A infância é um mistério tão grande que qualquer romancista terá interesse em o explorar. Na verdade, não são apenas os escritores a confrontarem-se com estes problemas; os pais e os educadores estão sempre perante tais dilemas. Será que lhes devemos dar toda a liberdade ou orientá-los, por vezes de uma forma errada? Não existe uma resposta certa. Até porque esta história da idade legal do estado adulto (18 anos) não é clara. Há pessoas que, aos cinquenta e mais anos, ainda não têm maturidade, não possuem as necessárias ferramentas morais.
Está a pensar em Jack, o marido de Fiona que, ao aproximar-se dos sessenta, tem um comportamento mais próprio de um adolescente do que o próprio Adam?
(Risos) Não tinha pensado nisso mas é verdade. Jack é impiedoso, cruel, egoísta, quer perseguir uma ideia sem pensar nas consequências. Por alguma razão se chama a essa idade a segunda adolescência, quando os homens decidem comprar a sua primeira guitarra, um carro desportivo, uma mota, ou pensam, tal como Jack, que têm de ter mais uma exaltante experiência amorosa…
Numa conversa com Zadie Smith, afirmou que a “crueldade é uma defeito da imaginação”. No entanto, esta forma desagradável de agir surge amiúde nos seus livros. Importa-se de comentar?
O que eu quero dizer é que nós – e não falo apenas dos romancistas – somos muito bons a ler a mente das outras pessoas e reconhecemos emoções diversas. Mas existe, por vezes, uma incapacidade para nos colocarmos no lugar do outro. A ausência de empatia resulta de uma falha da imaginação moral. A crueldade advém dessa incapacidade. É muito mais fácil olhar o outro como não humano ou esquisito. Podemos constatar tudo isso no imperialismo do século XIX, que constituiu uma falha tremenda da imaginação e resultou em crueldades infindáveis.

Por desumanizar “o outro”, como muito bem ilustra Joseph Conrad?
Exactamente.

Uma das ferramentas que utiliza amiúde é a sátira, o “humor negro”. É uma ironia muito particular, comparável à de Beckett? Concorda?
Não sei se é comparável mas … Oh, sim! Absolutamente.

Será o humor – e sei que aprecia o de John Updike e o do seu amigo Martin Amis – uma fuga à mediocridade? Mesmo neste livro, que não é propriamente “divertido”, introduz momentos fugazes de grande ironia.
Não, este livro não é divertido mas admito que esses momentos são importantes. Quando faço leituras públicas apercebo-me de que, em determinadas alturas, as pessoas riem-se e há uma certa tensão que se solta, um alívio, ainda que momentâneo. Aliás, tenho uma teoria: quem escreve bem é, fundamentalmente, um humorista. Por exemplo, os autores que mencionou são escritores excelentes e basta reler Shakespeare, que é o que tenho andado a fazer, para chegar à mesma conclusão: as frases e as palavras são tão belas, de um rigor tão extraordinário, que me fazem sorrir. Não vejo como a vida, ou a escrita, podem evitar o humor.

A propósito de Shakespeare, existe neste livro uma referência directa a António e Cleópatra quando fala de Enobardo, uma personagem ligada ao sentimento de culpa.
Não dependo de alusões mas é claro que, para mim, a Literatura é uma parte importante da realidade. Todos nós, escritores de agora, dependemos dos do passado. Não inventamos nada, não começamos do zero. Vivemos dentro de uma tradição. Mas não estamos reféns de métodos e convenções. A Literatura é um universo, uma espécie de corrente sanguínea que podemos usar, recuperando os fantasmas de tantas outras personagens.

Mas não respondeu à minha pergunta. Acha que Fiona, uma profissional impecável, uma mulher sensata e moralmente correcta, acaba por ser derrotada pela culpa?
Sim, ela faz tudo bem, ela segue a Lei e pondera cuidadosamente a sua decisão, no que diz respeito ao bem-estar de Adam. Como poderá salvaguardar-lhe a vida e a felicidade? Certamente não com um beijo e com o abandono subsequente – aí, ela pisa o risco e eu deixo a ambiguidade instalar-se: será ela a responsável pelo o que acontece, no final? A sua vida será ensombrada pelo o que fez e, também, pelo o que não fez? Existiria a hipótese de Adam encontrar conforto fora da religião, se ela lhe tivesse dado algum sinal?

Na sua qualidade de ateu confesso e assumido, é surpreendente que este livro seja tão “religioso”. Há um paciente que recusa uma transfusão de sangue por ser Testemunha de Jeová, Fiona faz o papel de Deus, ao decidir se Adam (um nome bíblico, tal como o dos gémeos Mathew e Mark) deve viver ou não. O eterno conflito entre a fé e a razão está sempre presente.
Tentei explorar os limites da racionalidade e, ao mesmo tempo, referir aquilo que as religiões oferecem, tal como o sentido de comunidade, as certezas morais e as finalidades para a vida que o racionalismo tem dificuldade em substituir. Quando Adam perde a sua fé, sente-se desesperado e tenta encontrar algo que a substitua. Para ele, o apreço (o amor) de Fiona representa tudo o que pode ocupar o lugar de uma religião. Mas Fiona não lhe dá o que ele precisa.

Existem, neste livro, duas alegações que se espelham uma à outra: uma, com implicações éticas, encontra-se no acórdão detalhado e inteligente, tão bem elaborado por Fiona, a favor da transfusão de sangue e contra os desejos de Adam; outro, bastante patético e até “fútil”, é o que Jack faz em sua defesa, contra a vontade de Fiona.
Quis atribuir a Fiona, para além da imagem exterior de uma mulher competente como Juíza do Supremo, uma dimensão mais terra-à-terra, fornecendo-lhe o seu próprio torvelinho doméstico. Apesar de toda a sua racionalidade e inteligência, ela falha em questões comezinhas. Com o marido, e nos assuntos mais íntimos, tem dúvidas, não sabe como reagir, como responder. Mostra-se frágil, vulnerável. É muito humana. Na sua esfera pessoal em vez de agir, limita-se a sofrer em silêncio.

Aquela bela cena no Hospital – quando Fiona canta o poema Down by the Salley Gardens de Yeats junto à cama de Adam – representa o primado da Música, da Arte sobre a teimosia fundamentalista de Adam?
Sim. Pergunto-me sempre o que terá o poder de substituir a fé. Posso elaborar uma longa lista: há a poesia, a pintura, a música, as paisagens, a literatura. Será que oferecem certezas morais? Penso que sim. E creio que não é preciso um Deus para apontar o caminho para essas mesmas certezas.

É por isso que, neste livro, faz alusões claras à filosofia da Idade Clássica? Há referências tanto a Epicuro e ao seu conceito da “vida boa”, como à Ética platónica e aristotélica. Acha que estes antigos filósofos ainda nos podem ser úteis?
Tenho a certeza. Penso que o Cristianismo, da forma como foi implantado, destruiu, ou afastou, uma tradição bem mais nobre que se inicia com Demócrito, segue com Epicuro e termina em Lucrécio. A curiosidade, tão essencial, desdenhada pelo cristianismo, foi sempre uma prática essencial destes filósofos. O cristianismo também foi hostil ao amor sensual e erótico, ao amor do amor. Poderia ter sido diferente sim, se tivéssemos seguido os preceitos de Demócrito, Epicuro e Lucrécio em vez de os de S. Paulo ou os dos profetas do Antigo Testamento. Por isso, perdemos muito, perdemos.

O papel da mulher na sociedade é também explorado de forma detalhada, na pessoa de Fiona. Ela é uma mulher de carreira, ama o trabalho, dedica-lhe tempo e esforço. Mas Fiona tem os “defeitos” que os misóginos atribuem às mulheres – não tem filhos e não lhe apetece fazer sexo. Para além disso está a envelhecer. O verso final do poema de Yeats (“…eu era jovem e inconsciente e agora estou cheio de lágrimas.”) é uma referência directa a este “pecado” que é o envelhecimento?
Dedico vários parágrafos a Jack e a Fiona e ao momento que estão a viver. Creio que eles estão naquilo a que eu chamo a infância da velhice. Ambos dão os primeiros passos nesse novo estádio da vida. Estão a tomar consciência dos sinais no corpo – a linha do cabelo que vai retrocedendo em Jack, o cansaço em Fiona. Para ela, o mais importante é a sua relação profunda com o Direito, com a aplicação da Lei. Para além disso, o facto de não ter filhos pode ser uma das razões que a faz levar tão a peito a situação de Adam. Ele poderia ser seu filho.

O desfecho deste livro é como uma variante adaptada aos nossos dias de um final à maneira de Jane Austen. Depois de tanto tumulto, há uma aparente reformulação equilibrada do mundo, não através de um casamento, mas sim de uma reinvenção da relação entre Jack e Fiona.
Sim, mas ficamos sem saber se Fiona alguma vez perdoará a Jack ou se ele não tentará de novo o adultério. No que toca a influências, neste meu final, inclino-me mais para a referência a um conto de Joyce, Os Mortos [do volumeGente de Dublin], no qual Gabriel e a sua mulher Greta se recolhem e ela fala de um amor antigo, de dolorosa memória, o que confunde e desperta o ciúme em Gabriel. É o que Jack sente, confusamente, em relação ao que aconteceu com Fiona e Adam.

Adam, no seu afã de vida e de morte, na perseguição a Fiona, naquele estado febril à chuva, na sua visão escatológica do mundo é uma personagem romântica, oriunda directamente da tradição literária do século XIX. Como concilia uma figura como esta com o racionalismo, tão bem delineado na figura de Fiona?
Bem, esses escritores (do séc. XIX) fazem parte da nossa paisagem mental; é impossível fugir-lhes.

Estamos a viver as mais variadas catástrofes: aviões que se despenham, pragas, doenças, cenas em directo na televisão com guerra, decapitações, violações, genocídios, bombas, desastres naturais. Crê que estes tempos são apocalípticos?
Sim, estamos a atravessar tempos sombrios, Releio os políticos de há cem anos, os que nos levaram à Iª Grande Guerra e continuo a não compreender: estamos na Europa, somos uns privilegiados e no entanto repete-se um sentimento de auto-piedade em política que é muito forte, uma ideia de que temos de ser castigados, mal compreendidos, que temos de nos vingar – como acontece com o estado islâmico.

É importante que sejamos mais racionais?
Não sei se o conseguiremos. Pelo menos, temos de tentar. A verdade é que as democracias liberais ocidentais continuam a ser os melhores lugares para se viver, no planeta.

Quase no final, Fiona toca maravilhosamente no concerto, ao mesmo momento que se desenrola o drama principal. Há uma dimensão apoteótica nesta cena, uma espécie de Juízo Final?
Foi esse o ambiente que eu quis criar.

Autor: Helena Vasconcelos

Fonte: www.publico.pt

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